Como trabalhar os valores das Olimpíadas na escola?

No ano de 2009, o Brasil recebeu a notícia que o Rio de Janeiro seria sede do maior evento esportivo do mundo. Deste então, muito trabalho tem sido feito para que as Olimpíadas e as Paralimpíadas sejam memoráveis e inesquecíveis para atletas e público em geral. A janela de oportunidades aberta pelos Jogos nos permitiu sonhar com uma transformação na vida das pessoas que vivem na cidade e fora dela. Grandes mudanças na infraestrutura urbana, bem como a construção de modernos centros de esporte já são percebidas. Todavia, é importante destacar outra transformação que vai além desse conjunto de obras na cidade.

O legado educacional dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos já é uma realidade para mais de sete milhões de estudantes no Brasil e em mais de 20 países graças ao Transforma, o programa de Educação do Comitê Rio 2016. O projeto atua em parceria com escolas públicas e particulares criando oportunidades para que estudantes do ensino fundamental e médio vivenciem os valores do evento e experimentem novos esportes. Pela iniciativa, alunos que antes não iam além do “quadrado mágico” (formado pelo vôlei, basquete, handebol e futebol) já estão se aventurando em modalidades pouco conhecidas, como o badminton, o rugby, o tiro com arco e em muitas outras.

A vivência dos valores das Olimpíadas, como o respeito e a amizade, faz crianças e adolescentes desenvolverem atitudes positivas, que servem de exemplo multiplicável para outros públicos. Mas, para que eles experimentem esses princípios, a escola deverá empreender esforços para inseri-los em seu dia a dia. Assim, os estudantes de hoje crescerão como modelos que influenciarão incontáveis pessoas ao longo de suas vidas.

Gincanas criativas, estudos de caso e exemplos reais de atletas são algumas das atividades que podem ser realizadas em sala de aula com o objetivo de melhorar o clima escolar, aumentar a frequência dos estudantes, prevenir bullying, valorizar a diversidade, elevar a autoestima e desenvolver a alegria do esforço. Depois de cada exercício, os alunos devem ser convidados a refletir sobre o que foi conversado ou experimentado, a imaginar o que fariam nas mesmas situações e a compartilhar suas impressões. Os professores, atentos, devem ressaltar os valores olímpicos na medida em que surgirem nas falas.

Vivenciar as Olimpíadas na escola também proporciona o desenvolvimento de preceitos éticos e de boa convivência, que contribuem para a construção de uma sociedade mais justa e pacífica. Nesse sentido, o Comitê Rio 2016 elaborou atividades para serem aplicadas por docentes em sala de aula, em várias disciplinas e em segmentos de ensino diferentes. Todas estão disponíveis no site do programa.

 

Atividades olímpicas e paralímpicas na escola

Segundo os relatos dos educadores do grupo de aprendizagem coletiva do Transforma, os esportes que mais chamam a atenção das crianças e adolescentes são os Paralímpicos. Um exemplo é a prática de esportes originalmente inventados para pessoas com deficiência visual como o goalball (o objetivo é arremessar a bola com as mãos no gol adversário) e o futebol de 5, para isso, os estudantes são vendados e têm seus movimentos limitados. Desse modo, chutar uma bola, tarefa que parece fácil para quem tem visão, se torna uma ação muito mais complexa. Colocando-se no lugar do outro, temos mais inclusão e menos bullying.

Localizada na comunidade da Maré, na capital carioca, a Escola Tenente General Napion está mudando o cenário de violência com o auxílio dos valores das Olimpíadas. Diversas disciplinas, além da educação física, já utilizam as modalidades como ferramentas pedagógicas. O conceito de trégua olímpica, por exemplo, foi trabalhado pelo professor de história a partir dos próprios conflitos da unidade e pelo docente de geografia para o estudo das bandeiras dos países. Por meio do Guia Escolar Paralímpico, instituições públicas e privadas estão aprendendo sobre novos esportes e desenvolvendo práticas para todas e todos.

Márcia Lomeu Castellano, docente de educação física da Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Dulce Bento Nascimento e do Centro Municipal de Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos Pierre Bonhomme, de Campinas (SP), chegou a usar dinheiro do próprio bolso para ir da cidade onde mora ao Rio de Janeiro participar das capacitações esportivas do programa. Na última delas, a educadora teve seu primeiro contato com o tênis e já organizou uma oficina com os alunos após a capacitação em tiro com arco. Ela acredita que, por meio das modalidades paralímpicas, eles conseguem se colocar no lugar dos outros. Em pouco tempo, ela já percebeu mudanças positivas, principalmente com relação aos estudantes com deficiência.

Na Creche Municipal Vila União da Paz, na zona oeste do Rio, o fato da educação física não fazer parte da grade curricular não foi empecilho para que a diretora da instituição, Claudia Regina da Silva de Deus, e o professor Bruno Costa Rossato unissem a comunidade escolar em torno dos valores das Olimpíadas e das Paralimpíadas. Lá, os pequenos foram introduzidos aos aros olímpicos, não sem antes explorarem o globo e conhecerem a correspondência entre os continentes e as cores do principal símbolo dos Jogos. Outros trabalhos desenvolvidos na unidade envolveram apresentações ilustrativas de levantamento de peso e de ginástica rítmica.

 

Ferramenta contra a exclusão

Conhecer um esporte novo aumenta o interesse pelas aulas e estimula novos movimentos. Uma modalidade que nunca foi utilizada em aula coloca todos os alunos na mesma posição de descoberta e chama a atenção daqueles que dizem não gostar de educação física e preferem ficar sentados. É difícil imaginar um docente de matemática que deixe um estudante de lado porque ele não gosta de números. Isso não acontece. E na educação física, tem que ser do mesmo jeito. Quem não gosta ou não sabe, vai gostar e aprender quanto tiver experiências positivas. Gostar de uma atividade física, muitas vezes, é uma questão de ajuste e de estímulo.

Segundo pesquisa feita pelo Diesporte sobre a prática esportiva no Brasil, 46% dos brasileiros se classificam como sedentários. Entre as mulheres especificamente, a proporção é ainda maior: 50%. Temos todas as ferramentas para mudar esse cenário no ambiente escolar atuando de forma inclusiva e perene. Com mais esportes nas escolas, conseguiremos contribuir para a mudança real.

Esse é o legado que estamos construindo em parceria com mais de 25 mil educadores e que nos levará muito além do pódio.

 

Vanderson Berbat é gerente de educação do Comitê Rio 2016, programa que estimula o aumento do repertório esportivo oferecido pelas escolas e o trabalho de valores olímpicos e paralímpicos. Geógrafo, já trabalhou no Governo Federal, no Instituto Unibanco e em institutos internacionais com a temática da educação e do desenvolvimento social e econômico.

©Instituto Rodrigo Mendes. Licença Creative Commons BY-NC-ND 2.5. A cópia, distribuição e transmissão dessa obra são livres, sob as seguintes condições: Você deve creditar a obra como de autoria de Vanderson Berbat e licenciada pelo Instituto Rodrigo MendesDIVERSA.

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